4 de setembro de 2004

O SÂNTANO

Hoje entrei numa loja de roupas práticas e baratas e descobri que a nova colecção era constituída por pólos betosos, camisinhas de riscas e só não tinham sapatinhos de vela, sabe lá Deus por quê. Depois entrei noutra e... a mesma coisa: camisinhas de ir ao râguebi (por Toutatis! como se uma pessoa não tivesse mais nada que fazerr...!), o pavoroso riscado e, não verifiquei, mas desconfio da presença da calcinha de prega... Todas as tendências inovadoras que estas marcas de pronto-a-vestir tinham apresentado nos últimos anos se tinham sumido. Vanished. No ar. Como um passe de Houdini.
A ditadura Gant aí estava, disfarçada de Quebra-Mares e afins.
Quem viveu nos anos 80 (e já tinha consciência) terá lembrança do que foi o alastrar da mancha laranja. Primeiro foram as meninas ajaezadas a argoletas nas orelhas. Depois os meninos, subitamente alourados, com o sapatinho de vela a desatar. Reinava Cavaco nas Finanças, o automóvel em todo o lado e Santana era secretário de estado da cULTURA.
Hoje, vivem-se tempos piores. A moda alaranjada tinha como objectivo demosntrar que a juventude queria ganhar dinheiro, ser empresário, comprar belos apartamentos e carros.
Agora, nestes santanais tempos, ela reflecte apenas as cabeças ainda mais alouradas, os cabelos ainda mais compridos que nem sequer isso desejam. Apenas estourar o dinheiro que não têm, explorar pais até ao tutano, ficar a dever a quem for preciso e divertir-se, divertir-se, divertir-se...
Concordo com os laranjas que classificam o fim do mandato guterrista como um pântano, no sentido de local estagnado de onde tudo pode surgir. A prova aí está. Estas camisas penduradas nas lojas são a prova de que cogumelos do mais inútil e venenoso nos cresceram ao pé...
Vivemos no Sântano.


Sem comentários: